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Os debates de questões de gênero e a sociedade atual

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A cerimônia de entrega do Globo de Ouro – com todas aquelas atrizes vestidas de preto em protesto – esquentou os debates sobre questões de gênero. Passagens envolvendo Bill Cosby, Harvey Weinstein, Kevin Spacey, Louis CK, Woody Allen, por exemplo, voltaram à tona. Como encarar a arte realizada por homens indiciados por crimes como assédio sexual ou estupro? Como o trabalho de uma vida toda perpassa – e resiste – a tais revelações a respeito do comportamento de seu autor? Separar o joio do trigo fica ainda mais complexo quando não se sabe onde acaba a obra e começa o homem.

Não se engane se você acredita que essa sensação de certa revolta vivida diante de uma obra de arte que te toma atenção e um artista exposto só atinge o mundo das celebridades. O acesso à informação de modo geral e o comportamento das novas gerações já não fazem distinção entre pobres mortais e o modelo aplicado para quem, por profissão, tem sua vida vigiada. Tal realidade passa a incluir também as empresas: todos podem errar e ter seus equívocos expostos. Os nossos ídolos, em qualquer esfera, portanto, podem vir a cair.

Estamos na era da total transparência. As organizações e o governo não possuem o domínio dos discursos, e muito menos dos meios pelos quais eles são propagados. Os influenciadores sociais – e as pessoas de modo geral – querem ser ouvidos, lutar por suas causas e participar das discussões sociopolíticas. É isso que os movimentos globais #MeToo e #TimesUp (do Globo de Ouro) estão promovendo.

Diante de tanto protagonismo da sociedade, conquistado por meio das redes sociais, é preciso entender que, nos dias atuais, as pessoas cobram das empresas e seus representantes e de personalidades públicas atitudes coerentes e consistentes com suas promessas.

            Por que agir se tornou tão importante?

O livro “A Era do Escândalo”, de Mário Rosa, traz uma fala do professor e pesquisador acadêmico inglês John Thompson que aponta que “nas sociedades antigas ou medievais, os governantes mais poderosos raramente, ou nunca, eram vistos pela maioria das pessoas”. Entende-se, portanto, que, naquela época, o objetivo era reforçar o poder incontestável dos líderes e não o de conquistar o apoio da massa. Com o desenvolvimento da mídia, quando o assunto é a imagem dos poderosos, não há mais distinção entre atitudes pessoais e posições políticas. Os líderes políticos, celebridades e influenciadores dirigem-se às pessoas como se fossem família ou amigos, vivendo os prós e os contras desse comportamento.

Com esse movimento chegando nas corporações, vivemos hoje uma desconfiança ininterrupta das pessoas nas empresas. As companhias nunca tiveram tão expostas e nunca tiveram que lidar com essa realidade. Esse novo modus operandi da sociedade sugere que repensemos como elas devem se posicionar para que seus discursos não sejam entendidos como vazios diante de tantas vozes. É preciso ficar atento aos programas de comunicação adotados para que eles trabalhem em prol da legitimação das atitudes da empresa.

A sociedade espera que as empresas também tenham mais empatia com as questões que são debatidas, atuando além do lucro. Que cumpram com seus acordos, que assumam bandeiras – de forma consistente. Caso contrário, correm o risco de não atingir a sociedade e seus influenciadores direta ou indiretamente, de ficarem fora do radar do seu consumidor. Quando a admiração e a confiança destes são quebradas as empresas colocam sua reputação em risco.

           Novos rumos

Na mesma semana em que o debate de gênero retorna à mídia, o UOL Tab publica um especial sobre justiça restaurativa, que até então eu desconhecia. Em entrevista para o portal, Marina Dias, advogada e diretora do Instituto de Defesa ao Direito de Defesa, além de idealizadora do documentário “Sem Pena”, explica que “enquanto na justiça retributiva (modelo tradicional) o Estado pega o conflito para si, a justiça restaurativa devolve o conflito para os principais envolvidos. Nela, a vítima tem a oportunidade de olhar nos olhos do ofensor, de contar o impacto da atitude dele na vida dela e de ouvir o lado dele”.

Tudo isso me leva a pensar que estamos experimentando tirar o melhor do caos. Quando surgem movimentos que engajam pessoas globalmente, de todos os níveis sociais, as novas formas de se fazer justiça e de devolver a vida e a dignidade às pessoas ganham força. A sociedade está se tornando mais proprietária da sua história, utilizando esse momento para refletir como se relaciona com seus ‘ídolos’. As empresas, nesse contexto, estão mais conscientes da complexidade que se tornou as relações entre elas e seus públicos, trazendo mais ação para os seus discursos.

* Eduardo Alves é líder de contas da área de Media Network na Edelman.

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